PLANTAR, ALIMENTAR E PRESERVAR

PLANTAR, ALIMENTAR E PRESERVAR
Alimentação agrícola e sustentável no Crajubar
Por: Gabriele Batista, Jesiane Santos e Nara Sousa
A Alimentação consciente é fundamental. Uma refeição de qualidade, livre de agrotóxicos e conservantes, é o ideal na vida das pessoas. Entretanto, nem todos têm acesso, condições ou não sabem onde encontrar produtos de boa qualidade e livre de aditivos químicos para uma rotina alimentar saudável. Os industrializados encontrados em supermercados parecem a opção mais fácil, e muitas vezes mais barata, mas também podem ser prejudiciais para a saúde.
A RELAÇÃO NUTRICIONAL ENTRE ALIMENTOS INDUSTRIALIZADOS E NATURAIS
O Governo Federal é responsável por garantir a alimentação da população, de acordo com artigo VI da Constituição Federal. Diante disso, é importante saber como essa responsabilidade é desenvolvida na prática, e ainda, questionar a qualidade desses alimentos que chegam nas casas das pessoas mais pobres.
A inflação no setor alimentício teve uma queda em 2023, após anos tendo um aumento considerável desde a pandemia do COVID-19, que trouxe um marco negativo para a economia brasileira. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), entretanto, essa mudança dos preços não consegue suprir por completo as necessidades da população. “Uma inflação menor este ano não será suficiente para reduzir o peso desses produtos na cesta de consumo, apenas o estabilizará. A dificuldade das famílias de mais baixa renda ainda vai perdurar por algum tempo”, palavras de André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do FGV IBRE no webinar O Impacto da Alta dos Alimentos, disponível no YouTube. O pouco acesso a produtos alimentícios de supermercados, geralmente industrializados, é um problema econômico para os consumidores. É preciso saber, então, como se encontra essa realidade em relação aos produtos de origem sustentável e orgânica.
A nutricionista e especialista em nutrição vegetariana Rejane Lima, da cidade de Barbalha (CE), diz que incluir vegetais, legumes e frutas na rotina alimentar é uma prática que impacta a curto e longo prazo o corpo humano. Os componentes indispensáveis para uma alimentação saudável incluem sais minerais, proteínas, vitaminas, carboidratos e água, substâncias facilmente encontradas em alimentos vindos do plantio. No caso de produtos industrializados, esses elementos aparecem em menor quantidade, e quanto maior o processamento, menor é o valor nutricional benéfico do alimento.
Veja abaixo as diferenças entre alimentos naturais e processados:

Foto tirada por: Gabriele Batista
IN NATURA
A escolha mais saudável na montagem do cardápio. Folhas, frutas, verduras, legumes, ovos, carnes e peixes. São aqueles obtidos diretamente de plantas ou de animais para o consumo sem que tenham sofrido qualquer alteração.

MINIMAMENTE PROCESSADOS
Arroz, feijão, frutas secas, sucos de frutas sem adição de açúcar, farinhas de mandioca, de milho de tapioca ou de trigo e massas frescas. Sofrem apenas processos de limpeza, moagem, pasteurização, etc. Sem adição.

PROCESSADOS
Conservas em salmoura, compotas de frutas, carnes salgadas e defumadas, sardinhas em lata, queijos feitos com leite, sal e coalho e pães feitos de farinha, fermento e sal. Industrializados, sofrem alterações com aditivos para manter os alimentos mais atraentes e duradouros

ULTRAPROCESSADOS
Salsichas, sorvetes em pote, chocolates, molhos, sopas, macarrão e temperos instantâneos, salgadinhos chips, refrigerantes, produtos congelados e prontos para aquecimento como massas, pizzas, hambúrgueres e nuggets. Produtos alimentícios muito alterados aditivamente, com pouco ou nenhum alimento inteiro puro.

Fonte: Ministério da Saúde
“Tudo começa na alimentação”
Rejane Ferreira, nutricionista
Segundo a profissional, o ideal é evitar os alimentos que fogem de sua matriz: "O que acontece é que eles têm muito aditivo químico”.
A nutricionista explica que o sódio é o aditivo mais usado nesses industrializados, e um grande causador de problemas de saúde como hipertensão. Ela ainda explica que esses produtos alimentícios são “calorias vazias”, pois não apresentam benefício algum para o corpo.
Outros aditivos químicos são usados para realçar sabor e conservar o alimento de forma não natural. As reações sempre aparecem, causando fadiga extrema, baixa imunidade, sinais na pele e risco de problemas de saúde mais graves.
Além de seu trabalho como nutricionista, Rejane Ferreira é membro do centro de nutrição "Aldeia da Luz", um instituto vegano sustentável, focado nas áreas da educação, saúde, segurança alimentar e nutricional, entre outras causas. A Aldeia da Luz existe há mais de dez anos. Dentre suas atividades, o instituto ensina às crianças de escolas públicas o processo do plantio e colheita de alimentos orgânicos, onde elas também são introduzidas a uma alimentação saudável e rica em nutrientes, um processo primordial para a especialista.
Rejane acredita que aprender os processos de cultivo é importante para as crianças, um momento em que conhecem a origem dos alimentos que posteriormente irão consumir.

Foto: Instagram de Rejane Ferreira
Sobre a educação alimentar ensinada nas escolas, a especialista afirma que não chega a existir, mas no seu entendimento, esse é um aprendizado que deveria começar em casa, e enriquecido em sala de aula. “Na minha opinião, ela deveria ser disciplina escolar. Alimentação, nutrição, educação alimentar” , completa a nutricionista
A profissional aponta também, que muitas vezes, os lanches oferecidos nas escolas não são de origem saudável, o que influencia a rotina alimentar dos pequenos.
AGRICULTURA: CONVENCIONAL OU SUSTENTÁVEL
Substituir os processados faz uma diferença significativa e contribui para uma vida saudável. Porém, há outra questão a ser considerada quando se fala de produtos alimentícios: os aditivos usados no plantio. Existem duas maneiras de fazer agricultura, que se diferenciam no tratamento do solo e, por consequência, na qualidade dos alimentos.
Na agricultura orgânica, são utilizados métodos naturais para controlar pragas e doenças, como o uso de compostagem e rotação de culturas. Além disso, os fertilizantes orgânicos são usados para melhorar a qualidade do solo e aumentar a produtividade.
Já na agricultura convencional, são utilizados fertilizantes químicos e pesticidas para controlar pragas e doenças. Esses produtos químicos podem ter efeitos negativos no meio ambiente e na saúde.
O engenheiro agrônomo, mestre e doutor em agronomia Marcelo Pinheiro, enfatiza que o seu trabalho é orientar o agricultor a como preparar o solo, como cultivar as técnicas de proteção cultural, no manejo para o controle de pragas e doenças. Manejo esse que pode ser tanto químico, como orgânico com alternativas naturais, como: extratos naturais, adubo orgânico e esterco animal.
Marcelo conta que trabalha nos dois ramos da agricultura, tanto a sustentável como a convencional, que usa os agrotóxicos. Ele diz que a agricultura ecológica traz menos riscos para o agricultor, além de ser mais barata para produtor e por ser uma forma de se obter um alimento mais saudável e com menos contaminação.
Outra diferença importante é a abordagem em relação ao manejo do solo. Na agricultura orgânica, o solo é visto como um sistema vivo e complexo, e é tratado de forma a promover a sua saúde e fertilidade. Já na agricultura convencional, o solo muitas vezes é visto como o meio para sustentar as plantas, e pode ser tratado de forma a esgotar seus nutrientes e prejudicar sua saúde a longo prazo.
O agricultor Damião Carlos do Nascimento trabalha no setor há 50 anos em Juazeiro do Norte. Ele usa agrotóxicos em alguns dos alimentos de sua plantação, como o milho, por não encontrar outro tipo de solução para afastar os insetos. Damião reconhece que o uso do agrotóxico não faz bem para a saúde, e pode causar vários efeitos negativos, como disenteria e outros problemas de acordo com o tipo e a intensidade do veneno. Ele fala que para não acontecer esses problemas, não se coloca o agrotóxico na vagem do feijão ou na espiga de milho, e sim quando ainda estão nascendo a flor. Pois, segundo ele, contamina menos o alimento e não altera o sabor.
A maior parte da produção é para o próprio consumo, o agricultor diz que as vendas não são constantes e que elas ocorrem de vez em quando na sua residência mesmo.

compostagem: é o conjunto de técnicas aplicadas para estimular a decomposição de materiais orgânicos por organismos heterótrofos aeróbios.
rotação de culturas: é uma técnica agrícola de conservação que visa a diminuir a exaustão do solo
FEIRINHAS ORGÂNICAS E PRODUÇÃO COMUNITÁRIA
Os supermercados continuam a ser o principal canal de venda de alimentos. Ao mesmo tempo, as feirinhas orgânicas são uma opção que valoriza a produção local, a saúde humana e o cuidado com o ecossistema. As feiras proporcionam um espaço de comercialização direta entre produtores e consumidores.
Ao lado, acompanhe a fala de Adriana Oliveira, uma consumidora que optou por uma alimentação mais sustentável:

Desde 2006, Auriluce Borges trabalha em uma feirinha na praça José Geraldo da Cruz em Juazeiro do Norte(CE), vendendo o fruto de seu próprio cultivo. Também trabalha em Caririaçu aos sábados. Residente do sítio Riacho do Meio, ela produz em uma horta junto a moradores da redondeza, onde cada família possui seu espaço para plantio. Afirma que tenta manter os produtos pelo mesmo preço que encontra no mercado, mesmo tendo um processo cuidadoso de plantação, porque visa manter os clientes.
Na hora de colher, a prioridade é sua própria alimentação, antes das vendas. Consome de outros meios apenas o que não consegue plantar.
Uma dificuldade que a população enfrenta ao procurar produtos de consumo, é a falta de acesso aos orgânicos. Em geral, eles tendem a ter um preço mais elevado em comparação aos convencionais. Essa diferença de preço pode ser atribuída a fatores como os custos de produção maiores na agricultura orgânica. Enquanto os supermercados têm maior capacidade de negociar preços com grandes fornecedores, essas feiras de alimentos são de uma estrutura bem menor, muitas vezes familiar, com baixa divulgação e sem relação comercial com empresas de maior porte.
O afastamento entre os comerciantes de orgânicos e os consumidores pode ser refletido tanto na questão do preço, como na distância até esses locais. Alguns consumidores também não conhecem este tipo de iniciativa. Uma vez que os industrializados são mais acessíveis, a qualidade dos produtos deixa de ser a prioridade para as pessoas.
Raimundo Santos, conhecido como Nego Din, é participante de uma horta comunitária, que atualmente conta com oito famílias colaboradoras da região. Localizada na cidade de Juazeiro do Norte, a Horta Agroecológica Comunitária “Nosso Lar” fica na Rua Terezinha Santos Macedo, n° 210, no bairro José Geraldo da Cruz. O projeto já chegou a ter 40 famílias contribuintes no passado. O processo é feito de forma orgânica, sem aditivos de adubos químicos e agrotóxicos que prejudicam o ecossistema local.

Feira agroecológica que acontece às sextas-feiras no horário das 4:00 - 10:00 hrs da manhã, na Praça José Geraldo da Cruz em Juazeiro do Norte (CE).
Foto tirada por: Gabriele Batista
“Tem que ter uma divulgação bem maior, ainda”
Nego Din, agricultor
Nego Din comenta que os compradores geralmente levam para uso próprio, mas que não são muitos. Os produtos são cultivados para venda, em que os consumidores solicitam por encomenda através das redes sociais e retiram no local da Horta. A principal dificuldade apontada é na estação de inverno, que conta com chuvas fortes e pragas. Nessa época, os chamados “defensivos” naturais são desenvolvidos lá mesmo, entre os cultivadores, mas nunca de maneira a representar risco à saúde.

Atualmente a Horta conta com oito famílias contribuintes.

Nego Din cuidando da Horta

Atualmente a Horta conta com oito famílias contribuintes.
Fotos tiradas por: Jesiane Santos
Casa de Quitéria
Liro Nobre é professor de geografia da rede estadual cearense. Atuante na agricultura agroflorestal, é o cuidador e produtor na terra que pertence a sua família há 5 gerações. Se entende como um experimentador e é um grande devoto da agricultura de base sustentável.
Ele também é articulador da Feira Agroecológica, da Casa de Quitéria, um centro cultural localizado na comunidade Baixio das Palmeiras na cidade do Crato - Ceará. A iniciativa existe desde 2017, e é um espaço de preservação da memória, cultura e hábitos ancestrais, sempre evidenciando a importância de uma consciência socioambiental para uma vida de mais qualidade.
No quintal da Casa de Quitéria existe uma pequena horta totalmente orgânica e nos arredores da casa uma agrofloresta, onde concentra-se uma maior produção de alimentos que são retirados para venda. Atualmente, a comunidade envolvida nesse projeto enfrenta um problema: o pouco espaço para o plantio. Liro aponta que, às vezes, um produto pode faltar de uma feira para outra, e acabam tendo que adquirir em outros ambientes. Apesar da dificuldade, ele afirma: ”O pouco que seja, que seja um fundo de quintal, mas que seja orgânico". Ele faz o trabalho em grande parte sozinho, mas tem a ajuda de um amigo. Esse entretanto, ainda está se habituando com a agricultura orgânica, pois aprendeu a plantar de forma convencional.

Plantação dentro de uma agrofloresta.

Liro Nobre mostra detalhes da agrofloresta.

Encomendas com preços dos produtos agrícolas vendidos na feira.

Plantação dentro de uma agrofloresta.
Fotos tiradas por Jesiane Santos e Gabriele Batista
COZINHAS COMUNITÁRIAS
A cidade de Juazeiro do Norte tem integrado o programa de alimentação pública, sustentado pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) criado a partir do art. 19 da Lei nº 10.696. Segundo o Governo Federal, o intuito é promover o acesso à alimentação aos cidadãos e incentivar a agricultura familiar.
Um dos ambientes construídos no desenvolvimento do programa são as cozinhas comunitárias, distribuídas em alguns lugares do município. Entretanto, existem apenas quatro destas cozinhas: localizados nos bairros João Cabral, Frei Damião, Vila Nova e Horto. São uma alternativa de alimentação para as pessoas de baixa renda inscritas.
Irevânia Nascimento, diretora da segurança alimentar municipal, diz que as cozinhas comunitárias têm preferência em usar produtos sem agrotóxicos. Além de também consumirem o alimento da época, o cardápio deve ser vasto e variado. O prato vem com legumes, salada, proteína e guarnição. Também é acompanhado de uma fruta como sobremesa.
As pessoas que são assistidas no programa são famílias em situação extrema de insegurança alimentar e vulnerabilidade social. Com a pandemia, as famílias não puderam mais chegar ao local, então foi criada a opção de servir a quentinha. Todos os componentes do lar precisam ser cadastradas junto ao CRAS. Um componente recebe os alimentos e leva pra casa para os demais, uma vez que a cozinha ainda não foi reaberta para ser consumida no local desde o início da pandemia.
As cozinhas têm um limite de servir apenas 200 pessoas por bairro. Em comparação com o número de moradores em situação delicada, não é suficiente para suprir as necessidades locais. Erivânia afirma que ainda há muitas famílias não atendidas, que permanecem na fila de espera.
Horta Caseira
Existem maneiras de começar um cultivo sustentável em casa, de forma totalmente orgânica.
O engenheiro agrônomo Marcelo Pinheiro dá sugestões para pessoas da zona urbana que se interessam pela agricultura: nos quintais das casas, podem ser feitas hortas verticais, aproveitando as paredes do ambiente. Os restos de alimentos podem ser usados como adubo. Ele diz que no início a dificuldade para quem quer fazer um plantio caseiro vai ser a busca de informações de como fazer a montagem, quais os tipos de produtos podem ser utilizados, qual planta é adequada para o quintal.
No caso de casas onde não existem quintal, a opção de fazer uma horta dentro de casa também é possível, com o cuidado de deixar a plantação em locais frescos que recebam a luz do sol.
Para quem almeja iniciar o hábito de comer de forma saudável, a nutricionista Rejane Ferreira também faz orientações, como se informar e ler bastante sobre o tema. Procurar espaços e projetos locais voltados para esse assunto também é uma maneira de se inserir no meio. Segundo a profissional, desse modo uma consciência é criada e o processo começa a ser mais natural. Além disso, é importante introduzir alimentos mais saudáveis na dieta aos poucos conforme a rotina permite.